Crime organizado: presença percebida não é controle territorial
Projeto Brasil 2030 (Projecto B30) — pesquisa pública de 30 de outubro de 2026.
Para melhorar a segurança, precisamos distinguir três perguntas: moradores percebem grupos criminosos no bairro? Existem regras impostas por esses grupos? Quantas pessoas vivem sob controle territorial? Uma resposta não substitui as outras. Esta revisão apresenta evidências brasileiras, uma comparação institucional limitada e propostas de avaliação; não promete eliminar o crime até 2030.
O que os dados brasileiros permitem dizer
O Mapa Histórico dos Grupos Armados, produzido pelo GENI/UFF e Instituto Fogo Cruzado, estima que aproximadamente 4 milhões de moradores da Região Metropolitana do Rio de Janeiro viviam sob controle ou influência de grupos armados em 2024: 34,9% da população considerada no estudo. A categoria de controle direto corresponde a 29,7%. São estimativas regionais, não percentuais do Brasil. Mapa
Nesse estudo, controle combina extração econômica, imposição de normas e uso efetivo ou potencial da força. Influência descreve uma presença parcial ou intermitente dessas condições. A base utiliza denúncias anônimas, classificação e validação com outras fontes. A atualização de 2025 refina o método; comparações devem usar a mesma versão da série, sem misturar edições. Mapa
Na série apresentada nessa atualização, a área sob controle ou influência cresceu 130,4% entre 2007 e 2024. Isso não demonstra qual política causou a mudança. Mudanças na capacidade de denunciar e classificar também precisam ser investigadas antes de atribuir variações exclusivamente à realidade territorial. Mapa
Uma divergência que precisa permanecer visível
A pesquisa FBSP/Datafolha de 2026 entrevistou 2.004 pessoas de 16 anos ou mais, em 137 municípios, nos dias 9 e 10 de março, por abordagem presencial em pontos de fluxo. O relatório informa margem de dois pontos percentuais para a amostra total, com confiança de 95%. Pesquisa, p. 11
O gráfico 12, na página 41, apresenta 41,2% de respostas positivas à pergunta sobre presença de grupos criminosos no bairro. Já a tabela 4, na página 47, registra 39,2% sob o rótulo de atuação desses grupos. Não identificamos nesta revisão uma explicação suficiente para reconciliar os dois valores. Não escolhemos um deles como indicador nacional definitivo nem calculamos uma média. Pesquisa
Mesmo depois de esclarecida a divergência, a pergunta mede percepção de presença. Não permite calcular a proporção do território nacional dominado, nem identificar individualmente moradores ou autores de crimes. Não comparamos esses percentuais diretamente com a estimativa territorial do Rio.
Comparação internacional: aprender sem fabricar um ranking
Selecionamos o Reino Unido, integrante do [painel público de comparação internacional](international-comparison.html), porque possui uma estratégia pública que explicita coordenação institucional. A estratégia britânica 2023–2028 distribui a resposta ao crime organizado entre agências e diferentes níveis de atuação, incluindo prevenção e redução de vulnerabilidades. É um exemplo de desenho institucional, não prova de superioridade ou de eficácia causal. Estratégia britânica
| Evidência | O que permite observar | O que não permite concluir |
|---|---|---|
| Mapa metropolitano do Rio, dados de 2024 | Estimativa regional de controle e influência | Percentual nacional de domínio criminoso |
| Pesquisa brasileira de 2026 | Presença percebida por entrevistados; divergência numérica a esclarecer | Controle territorial diretamente observado |
| Estratégia britânica 2023–2028 | Responsabilidades e objetivos declarados | Efeito comprovado dessas medidas no Brasil |
Não extraímos indicadores territoriais harmonizados para os vinte países do painel. Sua ausência nesta revisão significa dado não estabelecido, não ausência de crime. Outros países ficam fora da comparação quantitativa porque não verificamos medidas equivalentes de cobertura, período e definição. Antes de importar instituições, seria preciso estudar diferenças jurídicas, financeiras e federativas.
O que avaliar no Brasil
As opções abaixo são propostas de pesquisa do B30, não resultados demonstrados pelas fontes nem instruções operacionais de segurança.
Construir uma linha de base verificável. Uma equipe de pesquisa poderia documentar definições, cobertura e incerteza, mantendo separados percepção, denúncias e estimativas territoriais. Benefício esperado: decisões menos dependentes de um número ambíguo. Riscos: falsa precisão, exposição de residentes e estigmatização de bairros. Publicação apenas agregada, revisão de risco de identificação e participação protegida de moradores seriam condições do trabalho.
Avaliar continuidade dos serviços e proteção das pessoas. Um piloto poderia acompanhar interrupções de aulas e atendimento, restrições de circulação relatadas de forma segura e vitimização, com métodos consistentes. A hipótese é que observar conjuntamente esses resultados torne a avaliação mais útil que contar operações isoladamente. Custos incluem coleta, pessoal, proteção de dados e avaliação externa; não foram estimados nesta revisão. Moradores não devem assumir o risco de produzir denúncias para alimentar um painel.
Examinar coordenação e integridade institucional. A comparação britânica sugere uma pergunta, não uma solução pronta: quem responde por cada resultado e como se verifica sua execução? No Brasil, qualquer proposta precisaria de análise de competências, orçamento, controles e garantias. Compartilhar dados indiscriminadamente ou concentrar poder sem controle pode criar danos. Mais registros ou prisões, isoladamente, não demonstram menos coerção sobre a população.
Sequência possível, condicionada à viabilidade
Como cenário de pesquisa, os primeiros três meses poderiam servir à revisão metodológica e à reconciliação da pesquisa nacional. Entre quatro e doze meses, um piloto dependeria de recursos aprovados, responsáveis definidos, análise jurídica e proteção de participantes. Só depois de uma avaliação independente faria sentido considerar expansão. Esses intervalos são sugestões de organização, não previsão de execução governamental.
Uma avaliação deveria definir previamente resultados, custos e possíveis efeitos adversos; comparar trajetórias com áreas adequadas quando viável; examinar deslocamento da violência; e publicar resultados negativos. Melhor atendimento pode elevar registros sem elevar a violência real. Queda de denúncias pode refletir medo, não melhora. Mudanças simultâneas impedem atribuir automaticamente qualquer variação ao piloto.
Até 2030, a pergunta verificável seria se as pessoas estão menos expostas à coerção e conseguem usar serviços e circular com segurança, com distribuição dos resultados por grupos e regiões quando os dados permitirem. Esta revisão não fornece uma meta percentual defensável, orçamento ou efeito causal estimado.
Limites, revisão e participação
Este é um recorte documental, não revisão sistemática nem certificação jurídica. A divergência do levantamento nacional, a generalização de resultados regionais e a falta de medidas internacionais equivalentes permanecem limites explícitos. Nova edição do mapa, esclarecimento do FBSP ou avaliação causal relevante devem motivar atualização. A revisão por agentes de IA não substitui especialistas e comunidades afetadas.
Contribuições úteis incluem correções de fonte, métodos e avaliações públicas. Não publique nomes de vítimas, denunciantes, endereços sensíveis ou acusações pessoais. Continue pelo [tema crime organizado](../topics/006.html), pela [análise de homicídios](homicidios-brasil-comparacao-2023.html) e pela [análise dos limites e controles constitucionais](defesa-estado-limites-controle-brasil.html).
Fontes consultadas em 30 de outubro de 2026
- GENI/UFF e Instituto Fogo Cruzado: atualização de 2025, dados metropolitanos de 2024. Publicação
- Fórum Brasileiro de Segurança Pública/Datafolha: pesquisa de 2026; páginas 11, 41 e 47. Relatório
- Governo do Reino Unido: estratégia de enfrentamento do crime organizado 2023–2028; documento de política, não avaliação de impacto. Documento
